09 abril 2014

Prólogo


  Estava quente como o inferno. Murmurando uma maldição, eu arranquei minha camiseta e a joguei no cortador de grama. Julho era uma vadia. Roçar todo o parque de trailers no meio do dia não foi uma ideia das mais inteligentes, mas não tinha sido minha ideia. A velha que alugava o lugar queria isso feito, e não era o meu trabalho discutir com ela. Ela me pagava decentemente para cortar a grama e cuidar da manutenção do lugar. Eu tinha passado as últimas três horas roçando e suando litros durante esse tempo. Minha t-shirt estava encharcada, e eu seriamente precisava de um banho. Depois de colocar o cortador de volta ao galpão de ferramentas eu fui para casa, que era apenas alguns trailers de distância do galpão que ficava no meio do parque de trailers. Cansado, eu abri a porta do meu trailer e entrei...
  A televisão estava ligada e Emmie estava sentada no meu sofá. Normalmente, isso não teria sido um problema para mim. Quando minha mãe e meu padrasto não estavam em casa, Emmie vinha e assistia TV com Shane por algumas horas para escapar do pesadelo que ela chamava de mãe. Hoje, não era Shane que estava em casa. Ele estava com uma garota que ele conheceu em um dos nossos shows em alguma cidade na última sexta-feira.
Minha mãe estava no trabalho, como sempre. Ela trabalhava duro e raramente estava em casa, então só havia uma pessoa que poderia ter deixado Emmie entrar...
  Meu coração ficou frio, e eu tive que lutar para não vomitar quando eu olhei para a pequena menina sentada no sofá. Seu cabelo estava uma bagunça, como
sempre. Ela estava vestindo shorts que eram grandes demais para ela, provavelmente um par que um de nós tinha comprado em uma venda de quintal já que a mãe dela não se importava se ela tinha roupas ou não.   Havia um curativo em sua canela e alguns hematomas nas pernas e braços.
Ela olhou para mim e sorriu quando me viu olhando para ela. — Ei! — Ela cumprimentou, dando um gole de uma caixa de suco.
— Emmie, por que você está aqui? — Perguntei. — Quem deixou você entrar?
Seu sorriso diminuiu um pouco. — Sr. Rusty me deixou entrar. Eu estava jogando e ele perguntou se eu queria entrar e sair do calor.
Éramos uma das poucas famílias no parque de trailers que tinha um ar condicionado. Como é gentil do Rusty por convidá-la a sair do calor. Cerrei os punhos, tentando manter a calma na frente da menina inocente que eu tanto amava. Eu não queria assustá-la, mas ela não tinha ideia de que eu tinha acabado de salvá-la de pesadelos inimagináveis.
— Onde está Rusty agora?
— Ele teve que usar o banheiro, — ela me informou, me observando de perto.
Me abaixei na frente dela e peguei suas mãos nas minhas muito maiores. — Me escute, Emmie. Quero te perguntar uma coisa, e é importante que você me diga a verdade. Tudo bem, querida?
Ela assentiu com a cabeça castanho-avermelhada, e eu apertei minhas mãos em torno das dela. — Ele... — Eu engoli a bile subindo na minha garganta e comecei novamente. — Rusty tocou em você?
Seus olhos se arregalaram. — Eu... — Seu rosto ficou corado e ela mordeu o lábio. — Joseph...
— Ele tocou, Em? — Eu sussurrei.
— Eu... eu não... — Ela engoliu em seco. — Ele disse para não contar.
— Onde? — Eu exigi. — Onde é que ele te tocou, Emmie?
— Só na minha perna. — Ela tinha lágrimas em seus olhos, e eu percebi que o meu aperto em suas mãos estava muito apertado. Eu aliviei o aperto, mas não a soltei. — Ele se sentou comigo e esfregou minha perna enquanto eu assistia TV. Eu não gostei e disse para ele parar.
— Ele parou?
Ela assentiu com a cabeça. — Sim. Claro que sim. Então ele foi para o banheiro. Acho que ele está tomando um banho ou algo assim porque ele está lá há um tempo.
Raiva como nada que eu já senti antes ferveu dentro de mim. Eu estava começando a tremer quando vi o medo nos olhos de Emmie. Eu tentei conter, mas eu estava perdendo rapidamente o controle. — Rusty é um homem mau, Emmie. Lembra-se de como Jesse, Nik, e eu falamos para você sobre os homens maus? —    Ela assentiu com a cabeça, lágrimas derramando de seus grandes olhos verdes. Nove anos de idade e eu já conseguia dizer que ela ia ser uma mulher bonita quando ela crescesse.
 Os caras e eu tínhamos avisado Emmie de um monte de coisas ao longo dos anos: não tocar nas agulhas que sua mãe usava para o seu vício em drogas e nunca deixar um dos homens de sua mãe ficar a sós com ela. As conversas de sempre que você tem com um garoto que vive em uma casa cheia de monstros que as crianças como Emmie tinham que lidar.
Eu tinha tido a sorte de nunca ter um pai que abusou de mim ou fez as coisas que a mãe de Emmie fazia. Minha mãe era ótima, mas ela trabalhava em dois empregos para pagar as contas. Meu pai era um cara decente, então eu não tinha sido preparado para quando a minha mãe se casou com Rusty Nelson quando eu tinha dez e Shane tinha oito anos. Ele parecia ser um cara bom demais, até a noite em que ele havia subido na cama comigo. Minha mãe estava trabalhando no turno da noite no posto de gasolina da estrada, e Shane estava em uma festa do pijama com seu amigo de escola...
  Aquela noite tinha sido o começo dos meus pesadelos. Eu estava preparado para dizer a minha mãe e ameacei fazer exatamente isso, mas Rusty era um bastardo manipulador. Ele podia fazer ameaças tão bem como eu. Ele me garantiu que ninguém iria acreditar em mim. Quem iria acreditar em uma criança de dez anos de idade ao invés de um adulto como ele? Então ele me ameaçou com a única coisa que tinha certeza de que iria manter minha boca fechada. Shane.
  Se eu contasse, então Shane seria o próximo. Não havia jeito que eu queria que meu irmãozinho, o menino que era meu melhor amigo, experimentasse o que eu tinha acabado de passar. Então eu mantive o abuso para mim. E continuou por quase um ano.
  Quando eu fiz onze anos, eu cresci em altura por quase meio metro, e a puberdade chegou rápido. Eu não parecia mais como uma criança. Fui me transformando em um homem, e Rusty não tinha gostado, então eu fui esquecido. Eu tinha ficado com medo de que o tarado fosse começar a abusar de Shane, então eu mantive meus olhos abertos para os sinais do que estava acontecendo. Não havia nenhum e eu comecei a relaxar...Do fundo do corredor eu ouvi a descarga do banheiro e eu fiquei de pé, colocando o comprimento da sala de estar entre mim e Emmie no caso de eu machucá-la por acidente. Não havia jeito de Rusty escapar dessa. Ele mexeu com a criança errada desta vez!
— Joseph? — Emmie sussurrou meu nome, e eu dei-lhe um sorriso triste.
— Vai ficar tudo bem, Em. — Eu peguei o telefone que estava ao lado da cadeira de balanço em que minha mãe amava se sentar. Eu dei um soco em um número que eu sabia de cor e esperei por alguém para atender na outra extremidade.
— Sim? — Era o Sr. Thornton. O cara parecia bêbado e ele provavelmente estava.
— Sr. Thornton, Jesse está em casa? — Eu sabia que ele estava. Ele precisava estar no trabalho para o turno da noite da fábrica.
— Jesse! — O velho gritou, e eu ouvi Jesse pisar pelo trailer.
Ele murmurou algo que eu não conseguia ouvir a seu pai e, em seguida, colocou o telefone no ouvido.
 — Cara, eu estou ocupado, — disse Jesse sem sequer perguntar quem era. — O que você quer?
Olhei para Emmie. — Eu preciso que você venha. Agora.
— Joe, eu tenho que estar no trabalho em 20 minutos.
— Emmie precisa de você.
Isso o deteve. Dos quatro de nós Jesse era provavelmente o mais protetor de Emmie. O cara era como um urso mãe com seu filhote. — Ela está bem? — Ele exigiu.
— Isso é questionável. — Fisicamente, ela estava bem. Se esse idiota não tivesse feito nada mais do que tocar em sua perna, então ela podia não ter qualquer trauma mental. Mas o que me preocupava era dela estar no caminho quando eu perdesse o controle. — Só venha para cá. Corra, — eu disse a ele, quando ouvi a porta do banheiro se abrir. O telefone ficou mudo, e eu coloquei de volta no gancho.
— Que tal uma outra caixa de suco, Emmie? — Rusty perguntou enquanto ele vinha pelo corredor estreito. — Ou um picolé? Isso é do que você precisa em um dia quente de verão... — Ele me viu em pé ao lado da cadeira da mãe. — Eu não ouvi você entrar, — ele murmurou.
— Aposto que não. — Eu acenei. Ele não se parecia com um pedófilo. Parecia com o que a minha mãe ainda pensava que ele era: um ser humano decente. Eu acho que ele era bonito. Rusty tinha apenas uma barriga de cerveja. Seu cabelo era curto e livre de cinza. Ele tinha uma altura média e seu sotaque do sul era algo que minha mãe disse que ela gostava nele. Para mim, ele era o monstro dos meus pesadelos.
A porta da frente se abriu e Jesse veio parecendo furioso. Seu olhar foi direto para Emmie. — Em? Você está bem? — Ele correu e levantou-a em seus braços.
— Jesse! — Ela agarrou-se ao pescoço dele e enterrou o rosto em seu peito. — Joseph está me assustando.
— Que porra é essa, cara? — Jesse explodiu. — Ela não parece estar pior do que o normal... — Então ele viu o meu rosto.
Meu olhar ainda estava em Rusty, e eu sabia que o meu ódio, uma raiva pura e venenosa estava queimando em meus olhos. Eu ainda tremia e estava ficando pior a cada segundo. Jesse olhou de mim para um Rusty muito nervoso. — Leve Emmie para fora, Jesse, — eu disse a ele, sem tirar os olhos do meu padrasto.
— Joe...
— Agora! — Eu gritei, e Emmie choramingou em seus braços. Eu odiava que eu a estivesse assustando, mas não havia nada que eu pudesse fazer sobre isso agora. Mais tarde, eu prometi a mim mesmo. Mais tarde, eu faria as pazes com ela.
  Jesse murmurou algo tranquilizador para Emmie quando ele se virou e saiu do trailer. Com o alto estrondo da porta batendo, eu estalei. Não tinha jeito de que eu pudesse segurar meu controle agora...
Eu destruí a sala de estar. A luminária de chão que ficava ao lado da velha cadeira estava saindo de uma janela quebrada. O sofá que eu tanto amava estava revirado e provavelmente nunca seria usado novamente. Eu pensei ter ouvido o tom de discagem do telefone e percebi que estava fora do gancho na mesa ao lado do que já tinha sido a cadeira favorita da minha mãe que estava em pedaços. O lugar estava completamente uma lixeira no momento em que a polícia apareceu e me tirou de cima do inconsciente homem sangrando debaixo de mim. Precisou de dois deles para colocar as algemas em mim, enquanto eles lutavam para empurrar o meu rosto para baixo no tapete. Um dos policiais disse algo sobre uma ambulância, e eu gritei com ele para deixar o filho da puta morrer. O que só fez o policial me segurando para baixo empurrar seu joelho mais em minha espinha. Shane invadiu o trailer, seguido por Nik. Nenhum dos dois disse uma palavra quando eles viram a cena. Do lado de fora eu ouvi as sirenes da ambulância enquanto eu lutava contra as algemas. Eu queria terminar o que eu tinha começado antes que os paramédicos tivessem a chance de salvar o filho da puta.
— Joseph! — Minha mãe gritou quando ela seguiu os paramédicos para o trailer. Ela tinha acabado de chegar do trabalho e entrou em uma zona de guerra.
— Joseph, o que você fez? — Ela chorou quando viu o marido deitado imóvel sobre o chão da sala de estar e eu, seu filho mais velho, algemado. — Por que você fez isso?
Eu apertei minha mandíbula e me recusei a olhar em seus olhos. — Porque esse merda merecia.
— Mamãe! — Shane agarrou nossa mãe. — Mãe, há algo que você precisa saber.
Algo na voz do meu irmãozinho me fez olhar para ele. Ele sustentou as mãos de mamãe e falou baixinho para ela, mas eu ainda ouvi. — Rusty me molestou quando eu tinha nove anos, — explicou ele, e eu perdi o controle.
Tudo isso para nada! Os anos de manter o segredo que me assombrava dia e noite para protegê-lo. Eu tinha começado a beber até desmaiar apenas para conseguir dormir à noite. E foi tudo por nada! Rusty ainda tinha feito a Shane o que ele tinha feito comigo.
Eu me desvencilhei dos policiais e consegui ficar de pé, apesar das algemas. Antes que eu pudesse chegar em Rusty, um terceiro policial me abordou.
— Não! — Eu gritei. — Eu vou matá-lo!
Rusty Nelson ia morrer por tocar em meu irmãozinho...



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